Custódio Gaudêncio, nascido algures na década de 50 e registado na década de 60, natural de Ourique e residente junto ao IC1, mesmo perto da primeira curva a seguir à vila no sentido do Algarve. Olhe, eu cresci fascinado com a águia do Benfica. Cheguei a ir daqui à boleia para Lisboa só para ver o homem soltar e dominar a águia antes dos jogos. Até levava camarão das promoções do Pingo Doce nos bolsos para atirar da bancada lá para perto do poleiro da águia. Um dia cheguei a ter uma águia em casa que tencionava ensinar, para voar nos jogos do Ourique, mas veio cá uma equipa de proteção do ambiente e para além de me levarem a águia levaram-me o meu cágado Jeremias e ainda paguei uma multa de seis contos e trezentos que nem sei quanto será em euros. Ficou em mim uma revolta e cheguei a estar catorze dias sem comer e só bebendo Nesquik com bolachas de água e sal. O meu médico de família achou que eu tinha uma depressão e receitou-me uma visita ao Jardim Zoológico de Lisboa duas vezes por mês, durante dois anos alternando com aulas de ioga. Fiz o tratamento prescrito pelo clinico e foi então que me comecei a recuperar e prova disso é que ao fim de três visitas, já comia feijoadas com orelha de porco às sete da manhã. O problema eram mesmo os gases e a minha mulher pôs-me a dormir no sofá com o nosso chihuahua, o Afonso. E um dia destes estava eu ouvindo os discos pedidos na Rádio Vidigueira quando começa uma música do Augusto Canário e eu tenho uma brilhante ideia: e se eu treinasse um pardal? Foi aí que se abriram as portas de um novo mundo. Montei então uma armadilha para pássaros, apanhei um pardal macho e com um chicote dos cavalos comecei a ensiná-lo. Os pardais são de facto um bicho muito inteligente e no espaço de uma semana já dava a volta ao estádio e comia salsichas frescas de peru ou pão com chouriço, que eu lhe oferecia sempre que completava uma volta ao estádio. Por ter sido o primeiro homem do mundo a domesticar um pardal já recebi centenas de jornalistas de todo o mundo que, curiosos, querem fazer uma reportagem sobre o trabalho que desenvolvo. Projetos para o futuro? Amestrar uma planta de soja e pô-la a dar bananas. A soja está na moda e eu quero fazer história.
Crónicas de Ivan Valério: O treinador/tratador de pardais
